Só há uma referência ao zelotes nas Escrituras, e ela se refere a Simão, um dos doze discipulos de Jesus. Onde podemos encontrar mais informações a respeito desse grupo? O que eram e por qual razão os evangelhos diferenciam Simão como pertencente a este grupo?
O nome
Nas referências dos evangelhos de Mateus e Marcos o nome “Zelote” está no original grego como: Καναναῖος (Kananaios), que literalmente significa “cananeu”, indicando que Simão pertencia a um grupo. Já em Lucas e Atos o substantivo usado é ζηλωτής (Zelotes) que significa “zeloso”.
Que ligação tem “cananeu” e “zeloso”? A primeira definição está no sentido de definir o sujeito como nacionalista, pois, “cananeu” é aquele que defende a terra de Canaã, a qual é a terra de Israel, uma vez que foi Canaã a terra prometida aos descendentes de Abraão (Gn. 12.7).
“Zeloso” está no sentido de alguém que arde em zelo, tem profundo fanatismo por zelar por algo. Uma curiosidade interessante é que a palavra na língua inglesa para Zelote é zealot, que significa: fanático. O dicionário chega a definir como: uma pessoa que é fanática e intransigente na busca de seus ideais religiosos, políticos ou outros.
Origem do grupo
É difícil definir com exatidão o início do grupo. Os registros apontam para a época do reinado de Herodes Idumeu (reinou de 37 a.C a 4 d.C). Esse Herodes foi o mesmo que reformou o templo em Jerusalém, provavelmente para buscar mais aceitação dos judeus, pois seu reinado era contrariado pelo fato dele ser da Idumeia (região de Edom), que anos antes fora conquistada e forçada a se converter ao judaísmo por João Hircano. Temendo uma revolta popular, Herodes se casou com Mariana, filha do sumo-sacerdote e construiu a famosa fortaleza de Massada.
Ezequias, pai de Judas, o Galileu, tinha um grupo conhecido como “bando de ladrões” que se opunham de maneira fervorosa ao reinado de Herodes. Eles não eram apenas “ladrões” comuns. Josefo descreve como “ladrões” aqueles que eram patriotas ardentes que chegaram a fugir com suas famílias para as cavernas e fortalezas na Galiléia com a finalidade de lutar e morrer por sua convicção política e religiosa. Portanto, esses “ladrões” eram na realidade “zelotes”.
Josefo relata um caso onde um “zelote” matou sua esposa e seus sete filhos para que eles não fossem escravos de Herodes. Esse caso é idêntico ao de um levita chamado Taxo, que chegou a declarar:
Antes morramos do que transgredir os mandamentos do Senhor dos Senhores, o Deus de nossos pais; porque se fizermos isso nosso sangue será vingado diante do Senhor.
Assumptio Mosis, IX. 1-7
Séforis, na Galileia, deve ter sido a principal fortaleza dos zelotes. Após a morte de Herodes foi nesta cidade que se iniciou uma grande rebelião contra o seu filho, Herodes Arquelau. Sob a liderança de Judas, o galileu, que eles iniciaram uma revolta implacável e sanguinária totalmente avessos a Roma.
Finéias, o modelo dos zelotes
No período dos macabeus (iniciada em 167 a.C.) já parecia existir uma liga de zelotes. Os macabeus eram contra a introdução da cultura grega no meio judeu, esta por sua vez era apoiada pelos saduceus. Eles eram chamados de “zelosos pela lei” e por isso tinham alguns princípios farisaicos.
Quando Matatias matou um judeu que ele viu sacrificando a um ídolo, foi atribuido ao seu ato como o ato de Finéias (1Mac. 2.24,26,54). Finéias matou a Zinri por levar uma mulher para dentro do arraial. Pelo ato de Finéias foi que a praga cessou e ele recebeu uma aliança de sacerdócio perpetuo para sua família (Nm. 25.7-14).
Os sicários
Para punir os crimes de idolatria e outras transgressões da lei, foi que atribuíram aos zelotes o nome de “sicários”. Sica é literalmente (adaga), portanto, o nome significa “os da adaga”. Esses homens levavam adagas escondidas em suas vestes com o objetivo de assassinar Herodes. Essa revolta sicária iniciou-se depois da introdução de costumes gregos contrários ao espírito judeu, tais como: ginásios, arena e troféus. Esse grupo ficou conhecido por serem assassinos desenfreados, acusados por alguns de perderem o foco do movimento de zelo pela Lei.
Os Zelotes das Escrituras
Nem sempre aos zelotes é atribuido um adjetivo pejorativo. Por vezes são descritos como pessoas louváveis pelo seu zelo ou preocupação pela lei:
Ouvindo-o, deram eles glória a Deus e lhe disseram: Bem vês, irmão, quantas dezenas de milhares há entre os judeus que creram, e todos são zelosos da lei
Atos 21.20 ARA
Paulo, ao discursar no sinédrio se descreveu como um “zelote”:
Eu sou judeu, nasci em Tarso da Cilícia, mas criei-me nesta cidade e aqui fui instruído aos pés de Gamaliel, segundo a exatidão da lei de nossos antepassados, sendo zeloso para com Deus, assim como todos vós o sois no dia de hoje.
Atos 22.3 ARA
Paulo ainda se descreve como alguém que era “extremamente zeloso das tradições” e por isso se tornou perseguidor e assassino de muitos cristãos (Gl. 1.13-14).
Podemos então definir dois grupos de “zelotes”:
- Aqueles que eram zelosos pela Lei e tinham profunda e sincera preocupação.
- Aqueles que além de zelosos, eram violentos a partiam para luta armada contra os romanos ou todo aquele que eles consideravam transgressores da lei, especialmente os idólatras.
Simão, um dos doze, foi descrito como “zelote” (Mt. 10.4; Mc. 3.18; Lc. 6.15; At. 1.13). Nada mais é dito sobre sua vida e ações durante o ministério de Jesus. Existe uma discussão para saber se ele era apenas um homem zeloso pela Lei ou se pertencia ao ala mais conhecida por serem violentos e assassinos. A segunda opção é a mais aceita. Certamente, se ele era do partido, certamente não permaneceu mais como um sanguinário. Nas gravuras, ele geralmente está de posse de uma espécie de serrote, denotando sua origem da ala agressiva.
Aplicando a Teologia
Precisamos ser mais zelosos quanto a princípios das escrituras. Nosso século relativa valores imutáveis. Jesus também foi um “zelote” quando teve que expulsar os mercadores no templo:
Lembraram-se os seus discípulos de que está escrito: O zelo da tua casa me consumirá.
João 2.17 ARA
Ter zelo pelas coisas de Deus não é problema. A questão é quando a violência, ódio e falta de amor aparecem junto com as motivações corretas. Más ações não são justificadas por boas intenções.
Estamos dando ao nosso zelo pelas coisas espirituais um argumento para pegar na espada ou zelamos com amor genuíno? Só há uma espada que os verdadeiros zelotes devem portar:
Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração.
Hebreus 4.12 ARA
Tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus;
Efésios 6.17 ARA
Não devemos usar a espada do Espírito (as Escrituras) como objeto de ataque. Lembre-se:
[…] Não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos
Zacarias 4.6 ARA
Bibliografia
- Hamburger, R. B. T. ii. 1286-1296;
- Grätz, Gesch. iii. 4 and Index.
- Jewish Encyclopedia, 1906.
- Dicionário Bíblico Adventista do Sétimo Dia, 2016.

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